quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Feliz Ano Novo!

É chegado um Novo Ano
Junto a ele encerram-se alguns capítulos
É chegado um Novo Tempo
Cabe a nós fazê-lo realmente Novo.
É tempo de levantar as mãos aos céus e agradecer
Abrir os olhos do coração, reconhecer a luz soberana sobre nós
Receber uma graça especial para trilhar novos caminhos
Acordar os sonhos adormecidos, e pela fé, trazê-los a existência.
É tempo de esvaziar os odres para receber vinho novo
Abrir novas páginas, escrever novas histórias
Multiplicar os abraços, as ações de bondade
Valorizar o outro, almejar o amor, a paz
É Tempo de alcançar o inalcançável
Abraçar os dias com gratidão, alegria e perseverança
Replantar sementes, colher novas flores, novos frutos
Transpor fronteiras com ousadia e firme esperança.
Arnalda Rabelo







domingo, 27 de dezembro de 2009

Um Dia


De súbito, entre a sombria
roda dos dias iguais,
às vezes sucede um dia
que se distingue dos mais.
É um dia raro, feito
à medida do teu peito,
onde o meu busca repouso.
Um dia claro, luminoso
e sobre todos perfeito.
Um dia contra o cinzento
correr dos dias iguais,
no qual me invento e te invento
para sermos o momento
que não findará jamais.
Torquato da Luz


Escrevo cartas, caso não saibas,
escrevo, escrevo, escrevo...
Se descuidar escrevo todos os dias,
em quase todas as horas.
Na falta de notícias falo de mim,
faço narrativas do que vejo
além das janelas, do tropeço das ruas.
Trago para fora panos puídos das vestes
de minhas ilusões, meu olhar quebrado,
poeiras, esteiras onde se deitam, cansados,
meus sonhos adormecidos.
Tem tanto a ser dito que, ai de mim,
não dou conta de tudo que se tem a dizer.
E dá-lhe papéis, selos, endereços, envelopes,
gente, cidades, remetente,
e um gosto de adeus a cada carta que se vai.
Quem a recebe, recebe retalhos do que sou,
ecos do meu silêncio, pedaços distribuídos.
Tristezas, alegrias, contemplações, ausências:
ainda não sei o paladar das letras,
mas quero-as apascentadas,
como as pipas no céu
inocentes, ingênuas, indiferentes,
sem trazer na feição
a dor ansiosa do coração dos meninos.
Zeca Corrêa Leite

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Porque a Vida é Amor


Hoje
é Quarta feira!

De que mês?
De que ano?

Já me perdi no tempo
de te
pintar
e
de te escrever

Alguém me perguntou
se a vida
para mim era só isso,

Respondi pintando
um
Girassol!

escrevendo
um poema
borrado
de
Pôr do Sol

Porque
a Vida
é essencialmente
um garimpo de Amor!
LuizaCaetano

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Trilha Batida


Em todos os caminhos,
vestígios de outros passos.

A própria voz se perde
no vozear imenso.

Há muito,alguém pensou
os nossos pensamentos.

Só existe um refúgio,
uma posse,
um domínio defendido:
o profundo de nós mesmos,
singular
e indevassável.
Helena Kolody

Vazio

O pensamento à-toa
Que se perde no espaço.
E além, sem deixar traço
De si, o olhar que voa.

Um invisível fio.
O equilíbrio de uma ave
Na vertigem suave
Do voo no vazio.

Sob a aparente calma,
Esta inquieta, esta aflita
Vacuidade infinita
Para o respiro da alma...
Dante Milano

Cenário


Tudo é só, a montanha é só, o mar é só,
A lua ainda é mais só.
Se encontrares alguém
Ele está só também.

Que fazes a estas horas nesta rua?
Que solidão é a tua
Que te faz procurar
O cenário maior,
O de uma solidão maior que a tua?
Dante Milano

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Epigrama nº 4


O choro vem perto dos olhos
para que a dor transborde e caia.
O choro vem quase chorando
como a onda que toca na praia.

Descem dos céus ordens augustas
e o mar chama a onda para o centro.
O choro foge sem vestígios,
mas levando náufragos dentro.
Cecília Meireles

Chove uma grossa chuva inesperada
que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
duma vida que é chuva e não parece.

Chove, grossa e constante,

uma paz que há-de ser.

Uma gota invisível e distante

na janela, a escorrer.

Miguel Torga

sábado, 24 de outubro de 2009

Sinto-me Dispersado

Sinto-me dispersado
Em areia, alga, vento.
Que ficou do passado,
se o que resta é o momento?

Uma caricia vaga,
indecisa, procura
o que a memória apaga;
e de tudo perdura

leve aragem, não mais,
docemente soprando
junto às margens de um cais
que está sempre esperando.
Alphonsus de Guimaraens Filho

Eu Te Desejo Um Sonho

Desejos são coisas simples:

Andar de mãos dadas no meio da noite,
Fazê-la parecer nunca terminar
Enquanto estrelas travessas nos espiam
Remexendo com suas pontas ligeiras
Nossos corações distraídos;

Colher flores amarelas amadurecidas no campo,
Ataviar teus cabelos longos e leves
Enquanto o vento os toca com suavidade
Embalando nossas secretas
Vontades de perdição eterna...

Sonhos, porém, são mais complexos;
Eu por exemplo sonho te fazer feliz.

Viu como é complexo?
Oswaldo Antônio Begiato

domingo, 27 de setembro de 2009

Carência


Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.
Alejandra Pizarnik

A Hóspede


Não precisas bater quando chegares.
Toma a chave de ferro que encontrares
sobre o pilar, ao lado da cancela,
e abre com ela
a porta baixa, antiga e silenciosa.
Entra. Aí tens a poltrona, o livro, a rosa,
o cântaro de barro e o pão de trigo.
O cão amigo
pousará nos teus joelhos a cabeça.
Deixa que a noite, vagarosa, desça.
Cheiram à relva e sol, na arca e nos quartos,
os linhos fartos,
e cheira a lar o azeite da candeia.
Dorme. Sonha. Desperta. Da colméia
nasce a manhã de mel contra a janela.
Fecha a cancela
e vai. Há sol nos frutos dos pomares.
Não olhes para trás quando tomares
o caminho sonâmbulo que desce.
Caminha - e esquece.
Guilherme de Almeida

sábado, 26 de setembro de 2009

Solidão


Na solidão na penumbra do amanhecer.
Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,
nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.


Via você no ontem , no hoje, no amanhã...
Mas não via você no momento.

Que saudade...
Mario Quintana

segunda-feira, 21 de setembro de 2009


Tenho palavras que te procuram,
que se acendem nesta existência suave;

palavras para seguir caminhos,
para te abrir os dias;

palavras partículas de fogo
que acarinho para os momentos precisos
nos seus puros abandonos;

palavras verticais como chamas,
que te chamam na procura,
mais claras que o dia.

Com palavras de lua e de vento
invento veredas de palavras
que adoçam os silêncios
e explicam as madrugadas.

Palavras que só a ti direi.
®efeneto

O Tempo


Ela queria tanto,
Para poder esquecer
A cor cinza de sua nascença,
Ganhar de presente, no dia de seu aniversário,
A delicadeza de uma boneca de trapo.

Queria tanto, tanto,
Que acabou comprando,
Naquela tardinha, em que abandonada,
A chuva lhe caia copiosamente dentro d’alma,
Uma boneca fria de porcelana fina.

Pena que já era tarde.
Ela, agora, não tinha mais tempo para esquecimentos.
Não tinha mais tempo para delicadezas.
Oswaldo Antônio Begiato

domingo, 20 de setembro de 2009

Asas e Azares

Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais que eu fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não dói.
Leminski

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Revisitado


Bem-vindo à minha casa
mas se quiseres ir ao sótão
traz as velas , algo ali vive
que não permite a crua luz
escancarada.

Eu o revisito tantas vezes
e não me incomodam seus trastes,
alguns ratos - eles me convivem,
eu sou o velho hóspede da casa.

Subo e desço no cotidiano ato,
gosto de ir às vezes regar,
antes que esquecidas mal cheirem,
as flores de meu cercado
(com a palma de meus olhos
acaricio as ternas fugacidades).

Desço e subo, vou por estes cômodos
sonambulando.

Acomoda-te em minha casa
mas se quiseres entrar em meu sótão
acende as velas.

Ali já estou aclimatado,
sou amigo do gato, eu furto a luz
pelas mínimas frestas do telhado.
Ali todas artimanhas já incorporei,
eu sei dos hábitos, eu me convivo -

eu sou o velho fantasma da casa.
Fernando Campanella

Os Lírios


Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos — perfeitos! —
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada por entre os lírios
adormecerei tranqüila.
Henriqueta Lisboa

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Lendas Perdidas


É a saudade áspera de mim mesmo
O buraco negro por onde me entranho
Nas profundezas de meu espírito revel
E reviro, aflito, minhas gavetas internas
À busca das lendas que faziam do mundo
Meu mundo azul e coberto de quimeras.

Não me lembro mais onde elas estão;
Eu, temeroso, as guardei bem guardadas
Quando era ingênuo escutador de estórias.
Oswaldo Antônio Begiato

Água Furtada


Sempre pensei que água furtada
Fosse a crueldade que faziam com a sede.

Depois de velho é que fui descobrir
Que, por falta de castelos com torres,
Água furtada é onde sempre
Esteve escondido o meu amor.

Crueldade que fizeram com minha sede.
Oswaldo Antônio Begiato

Biografia


Escreverás meu nome com todas as letras,
com todas as datas,
e não serei eu.

Repetirás o que ouviste,
o que leste de mim, e mostrarás meu retrato,
e nada disso serei eu.

Dirás coisas imaginárias,
invenções sutis, engenhosas teorias,
e continuarei ausente.

Somos uma difícil unidade,
de muitos instantes mínimos,
isso seria eu.

Mil fragmentos somos, em jogo misterioso,
aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente.
Como me poderão encontrar?

Novos e antigos todos os dias,
transparentes e opacos, segundo o giro da luz,
nós mesmos nos procuramos.

E por entre as circunstâncias fluímos,
leves e livres como a cascata pelas pedras.
Que mortal nos poderia prender?
Cecília Meireles

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Flores


Há flores em meus olhos
que não nascem nas primaveras
que são de infinitas esperas
azuis, intactas, nascem à revelia
orvalhadas pelas lágrimas
caladas da minha poesia.
Tonho França

Trégua

Hoje estou velha como quero ficar.
Sem nenhuma estridência.
Dei os desejos todos por memória
e rasa xícara de chá.

Adélia Prado

A Serenata


Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobro
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
— só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
Adélia Prado

Um Sonho


Eu tive um sonho esta noite que não quero esquecer,
por isso o escrevo tal qual se deu:
era que me arrumava para uma festa onde eu ia falar.
o meu cabelo limpo refletia vermelhos,
o meu vestido era num tom de azul, cheio de panos, lindo,
o meu corpo era jovem, as minhas pernas gostavam
do contato da seda. Falava-se, ria-se, preparava-se.
Todo movimento era de espera e aguardos, sendo
que depois de vestida, vesti por cima um casaco
e colhi do próprio sonho, pois de parte alguma
eu a vira brotar, uma sempre-viva amarela,
que me encantou por seu miolo azul, um azul
de céu limpo sem reverberações, de um azul
sem o “z”, que o “z” nesta palavra tisna.
Não digo azul, digo bleu, a idéia exata
de sua seca maciez. Pus a flor no casaco
que só para isto existiu, assim como o sonho inteiro.
Eu sonhei uma cor.
Agora, sei.
Adélia Prado

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Moradas do Silêncio


O silêncio tem muitas moradas,
todas elas
com várias portas e janelas,
saídas e entradas.
São moradas que o tempo
ergue em qualquer lugar
sem recear que o vento
as venha habitar.
Mas nenhuma tão cheia
de perfume do mar
como a que tenho ideia
de ler no seu olhar.
Torquato da Luz

O Guardador de Rebanhos XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.
Alberto Caeiro

O Meu Olhar é Nítido Como o Girassol


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Alberto Caeiro

Soneto


Desponta a estrela d'alva, a noite morre.
Pulam no mato alígeros cantores,
E doce a brisa no arraial das flores
Lânguidas queixas murmurando, corre.

Volúvel tribo a solidão percorre
Das borboletas de brilhantes cores;
Soluça o arroio; diz a rola amores
Nas verdes balsas donde o orvalho escorre.

Tudo é luz e esplendor; tudo se esfuma
Às carícias d'aurora, ao céu risonho,
Ao flóreo bafo que o sertão perfuma!

Porém minh'alma triste e sem um sonho
Repete olhando o prado, o rio, a espuma:
- Oh! mundo encantador, tu és medonho!
Fagundes Varela

Não Te Esqueças de Mim


Não te esqueças de mim, quando erradia
Perde-se a lua no sidéreo manto;
Quando a brisa estival roçar-te a fronte,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando escutares
Gemer a rola na floresta escura,
E a saudosa viola do tropeiro
Desfazer-se em gemido de tristura.

Quando a flor do sertão, aberta a medo,
Pejar os ermos de suave encanto,
Lembre-te os dias que passei contigo,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando à tardinha
Se cobrirem de névoa as serranias,
E na torre alvejante o sacro bronze
Docemente soar nas freguesias!

Quando de noite, nos serões de inverno,
A voz soltares modulando um canto,
Lembre-te os versos que inspiraste ao bardo,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando meus olhos
Do sudário no gelo se apagarem,
Quando as roxas perpétuas do finado
Junto à cruz de meu leito se embalarem.

Quando os anos de dor passado houverem,
E o frio tempo consumir-te o pranto,
Guarda ainda uma idéia a teu poeta,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.
Fagundes Varela

domingo, 6 de setembro de 2009

Pour Christiane


Viver é sobreviver ao vir e ver
É ser agora todos esse instante
Inteiro momento.

É renascer aqui e adiante
Como o sol a cada madrugada
E mais um pouco daqui a pouco
E depois mais, e depois mais
No rasgar-se das manhãs novas.

É sofrer calado na dor se a dor não cala
É amar na cara do amor se o amor te encara
É crer em ti a partir do teu querer
É cravar na vida os dentes do rir
E sorrir como um arco-íris
Alegremente.
Fernando Magno

Tempo Trans-verso


Meu verso é chão de caminho diverso
Retiro azul do meu pensar
Fome e sede – dores que não sei... Pressenti.
Gula do sol de teu céu desancorado
Adoçante mar
Frouxas verdades empinando-se pro futuro
Soluçantes presenças de pretéritos expiados
Inacabados ais.

Meu verso foi grito de rua
Pra que lembrasse de mim os que me viram passar
Pra que coubessem em mim todos os que amei
Por isto destravo nesta hora este canto entre amarras.

Meu verso é tempo que não meço
Vai por aí por onde nem sempre vou
É rio corroendo barrancos, margens que me viajam
Águas assanhadas que me trazem cobiças
Penetrando meus ossos
Sonhos doídos, moídos de amor. Destroços.
E eu navegando... Navegue assim.
Fernando Magno

sábado, 5 de setembro de 2009

Canção Pensativa


Um toque da solidão,
e um dedo severo me traz à realidade:
não depender dos meus amores,
não me enfeitar demais com sua graça,
mas ver que cada um de nós é um coração sozinho.


Cada um de nós perenemente
é um espelho a se mirar,
sabendo que mesmo se nesse leito frio e branco,
um outro amor quer derramar-se em nós,
entre gélido cristal e alma ardente,
levanta-se paredes para sempre!


(E para sempre a amante solidão nos chama e abraça.)
Lya Luft

Canção de Alta Noite


Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar...Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada.
Cecília Meireles

Cântico XXIV


Não digas: este que me deu corpo é meu Pai.
Esta que me deu corpo é minha Mãe.
Muito mais teu Pai e tua Mãe são os que te fizeram
Em espírito.
E esses foram sem número.
Sem nome.
De todos os temos.
Deixaram o rastro pelos caminhos de hoje.
Todos os que já viveram.
E andam fazendo-te dia a dia
Os de hoje, os de amanhã.
E os homens, e as coisas todas silenciosas.
A tua extensão prolonga-se em todos os sentidos.
O teu mundo não tem pólos.
E tu és o próprio mundo.
Cecília Meireles

Letra Para Um Hino


É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
Manuel Alegre

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A Ponte



Salto esculpido
sobre o vão
do espaço
em chão
de pedra e de aço
onde não
permaneço
- passo.
Zila Mamede

A Brevidade da Rosa


Não sobreviverão meus poemas
às ondas do tempo,
humildes barcaças que são.

Não deixarei descendentes,
se perderá minha linhagem
no voraz roldão dos anos.

Transitória, breve,
como a rosa desfolhada
cujas pétalas agora voam
ao suave vento da tarde.
Mas leve,
...leve!
Lenise Marques

Cavalgada


Eis que olhei para trás
e meus erros haviam secado
pendurados nos galhos do tempo.

Havia uma voz no vento,
tomei meu cavalo e a segui.
Na algibeira paz derradeira
de quem ama a solidão.

E quando a noite do fim dos dias
tocar-me a face com os negros dedos,
docemente entregarei o corpo à terra,
soltarei o alazão às pastagens
e a alma...à imensidão.
Lenise Marques

domingo, 30 de agosto de 2009

É Meu Este Poema Ou é de Outra?

É meu este poema ou é de outra?
Sou eu esta mulher que anda comigo
E renova a minha fala e ao meu ouvido
Se não fala de amor, logo se cala?

Sou eu que a mim mesma me persigo
Ou é a mulher e a rosa escondidas
(Para que seja eterno o meu castigo)
Lançam vozes na noite tão ouvidas?

Não sei. De quase tudo não sei nada.
O anjo que impulsiona o meu poema
Não sabe da minha vida descuidada.

A mulher não sou eu. E perturbada
A rosa em seu destino, eu a persigo
Em direção aos reinos que inventei.
Hilda Hilst

Aflição de Ser Eu e Não Ser Outra.


Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
Hilda Hilst

O Vento e Eu

O vento morria de tédio
Porque apenas gostava de cantar
Mas não tinha letra alguma para a sua própria voz,
Cada vez mais vazia...

Tentei então compor-lhe uma canção
Tão comprida como a minha vida
E com aventuras espantosas que eu inventava de súbito,
Como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos
E fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo...
Mas o vento, por isso
Me julga agora como ele...
E me dedica um amor solidário, profundo!
Mario Quintana

Nos Salões do Sonho

Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!
Mario Quintana

domingo, 23 de agosto de 2009

Roda Viva



Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
Chico Buarque

Procurando Estrelas


Faz frio! Vou em busca de agasalho.
Oh! Lágrimas... (e luto por contê-las!)
Olhos abertos, procurando estrelas,
sigo, e na estrada minha mágoa espalho.


As flores choram lágrimas de orvalho,
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las,
vejo toda a criação chorando pelas
folhas a balançar em cada galho.


Sigo tristonho... Baila pelo espaço
o lamento das coisas que ficaram
sem um amor, sequer, para entendê-las.


Deixo um pouco de dor por onde passo...
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram
ante o esplendor do riso das estrelas!
Lago Burnett

Sugestão


Onde há um pouco de ti, encontrarás, por certo,
um pouco de minha alma, um pouco do meu sonho,
porque surgiste, assim, no meu viver tristonho,
rasgando o véu do amor que eu trazia encoberto...


Vencido à sugestão do teu olhar risonho,
sigo, no meu destino, os teus rastros, de perto,
e busco achar no céu, nos mares, no deserto,
um tema que enriqueça os versos que componho.


Andes por onde andar, sigo-te, passo a passo!
Sinto que estás em mim, no cérebro, nas veias,
giro em torno de ti, satélite no espaço!


Para onde vais, me vou, cativo, acorrentado,
e embora tendo ao lábio a frase por que anseias,
não ouso revelar e sigo-te ignorado...
Lago Burnett

O Lado Bom


Quero ser uma ilha,
um pouco de paisagem,
uma janela aberta,
uma montanha ao longe,
um aceno de mar.

Quando precisares de sonho,
de um canto de beleza,
de um pouco de silêncio,
ou simplesmente
de sol... e de ar...

Quero ser o lado bom
em que pensas,
isto que intimamente
a gente deseja
mas nem sempre diz
- quero ser, naquela hora,
o que sentes falta
para seres feliz...

Que quando pensares
em fugir de todos
ou de ti mesma, enfim,
penses em mim...
J. G. de Araújo Jorge

Poética


Enquanto procuravam conceituar a poesia
E velavam sua face
Com palavras perfeitas,
Enquanto marcavam com sinais agudos
As fronteiras do domínio poético,
Enquanto a inteligência perseguia o mistério –
Veio descendo a tarde
E uma doçura mortal
Envolveu a rua e o mundo.
No céu quase roxo,
No céu incerto e delicado,
Asas escuras fugiam
Do noturno próximo
E subitamente, sinos
Soluçaram.
Augusto Frederico Schmidt

Eu Quero Falar de Amor


Vendo tanto sofrimento,

espalhado pela vida,

quero parar um momento,

pra buscar uma saída,



que seja alegre e risonha,

como a beleza das flores,

que muitos encantos ponha,

nas almas dos sonhadores,



que carregam no seu peito,

a ilusão do amor perfeito,

sem mágoas e sem dissabor.



que possa embalar corações,

e ao som de bonitas canções,

eu quero falar só de amor . . .
Samuel Nunes

Por Teu Amor...


O meu amor é assim
Louco, insano
Quente e sem fim
Por teu coração
Por ti, em mim...
O meu amor é assim
Por tua paixão
Que é chama!
Viva, eloqüente
Louca, na cama
Que inflama
Tudo em mim...
O meu amor é assim
Pelos beijos teus
Que provoca
Os desejos meus
Sem ilusão
Assim que são
Por ti, em mim...
O meu amor é assim.
Dolandmay