quinta-feira, 23 de maio de 2013

Exortação


Noite…, silêncio…, paz…, calma…, sossego…, inércia…
Noite quer dizer sono e quer dizer loucura:
aquele – exerce-o o corpo em tréguas; esta, exerce-a
a alma – boêmia, a alma-louca, a alma leviana e impura.

Noite: estrelas e luar… colméia astral… Disperse-a
o sol – o caçador desalmado da Altura,
e as estrelas virão, novamente à solércia,
à atividade, à lei que as harmoniza e apura.

Noite: árvore de sóis, hospitaleira e boa!
Oásis de redenção – para as consciências presas
pelo Amor e que o Amor povoa e despovoa!

Noite: as estrelas são como chagas acesas…
Noite – viúva do Sol – acolhe-me e perdoa
minhas divagações e minhas incertezas…
Hermes Fontes

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Espelho

Sou prata e exato. Não tenho preeconceitos.
O que quer que veja, absorvo de imediato
Tal como é, indiferente ao amor ou desdém.
Não sou cruel, apenas verdadeiro -
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
A maior parte do tempo medito sobre a parede oposta.
É côr de rosa, com pequenos pontos. Olhei tanto para ela
Que já faz parte do meu coração. No entanto, deixa-se afastar.
Os rostos e a escuridão estão sempre a separar-nos.

Agora sou um lago. Uma mulher inclina-se sobre mim
Procura em mim o que ela realmente é.
Depois volta-se para aqueles mentirosos, os candeeiros e a lua.
Vejo-lhe as costas, que reflicto fielmente.
Em troca, ela dá-me lágrimas e um movimento de mãos
Sou importante para ela. Ela vem e vai.
Todas as manhãs, é o rosto dela que substitui a escuridão.
Em mim ela afogou uma menina, e em mim uma velha
Sobe até ela, dia após dia, como um peixe feio.
Sylvia Plath
 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

 

Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar,
Que é que me revela?

Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.

Que angústia me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa
Na noite que fica.
Fernando Pessoa

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013


A linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem contra o outro. É como se tivesse palavras de dedos ou dedos na extremidade das minhas palavras.
Roland Barthes

Não tenho qualquer disponibilidade para o mundo. Percorro lugares insuspeitos dentro de mim, estou cada vez mais só e já não me lamento. A vida deixou de me embriagar. Paciência. Nenhum fascínio pela morte. Escrever talvez seja o espaço habitual entre vida e morte. Aí me mantenho, aí me vou consumindo e sobrevivendo nessa espécie de limbo.
Al Berto

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Maria Rita - Redescobrir


Como se fora a brincadeira de roda
Jogo do trabalho na dança das mãos
O suor dos corpos na canção da vida
O suor da vida no calor de irmãos

Como um animal que sabe da floresta

Redescobrir o sal que está na própria pele
Redescobrir o doce no lamber das línguas
Redescobrir o gosto e o sabor da festa

Vai o bicho-homem, fruto da semente

Renascer da própria força, própria luz e fé
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós
Somos a semente, ato, mente e voz

Não tenha medo, meu menino povo

Tudo principia na própria pessoa
Vai como a criança que não teme o tempo
Amor se fazer é tão prazer que é como fosse dor

Como se fora a brincadeira de roda

Jogo do trabalho na dança das mãos
O suor dos corpos na canção da vida
O suor da vida no calor de irmãos



Memória!

Macias!
Histórias!
Magia!

Como se fora brincadeira de roda

Jogo do trabalho na dança das mãos
O suor dos corpos na canção da vida
O suor da vida no calor de irmãos
Composição: Gonzaguinha
 

sábado, 29 de dezembro de 2012

Palavra

 
Golpes,
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.

A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
sobre a rocha

Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro

Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.
Sylvia Plath