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sábado, 2 de abril de 2011

Decifra-me



A lua é um criptograma.
Decifra-me, diz ela
à minha metade analítica
E trôpega.
À minha outra porção,
Mais precavida
Ante o mistério das coisas,
Ela sussurrra-me apenas:
bebe de meu vinho e sonha
Fernando Campanella

domingo, 29 de agosto de 2010

A Tarde Às Vezes Me Convida


A tarde às vezes me convida
para um volteio nos campos
entre contornos de montes
ante o silêncio de uma ermida

a uma luz inclinada
por um certo sopro de outono
em transparências de azul
às vezes a tarde me quer voo
por entre as nuvens compartidas

- a tarde se esquece às vezes
louca e lindamente
que não tenho o descompromisso
das aves, que sou gente.
Fernando Campanella

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Milagre



Eu caminhava entre árvores
E espremia nos dedos
O mudo cipreste, roçando
um acridoce olfato
Ao silêncio de meu nariz.
Ali entre cúmplices imagens,
Onde o vento me sabe
E o sem- fundo do lago me diz,
No frescor do mais contido sumo,
Cheirei a poesia, assim do nada,
E caminhei sobre as águas,
O naufrágio por um triz.
Fernando Campanella

sábado, 30 de janeiro de 2010

Sopra-me


Sopra-me
que ao de onde procedo
haverei com levezas
de, então, retornar.
Com o calor de teu sopro,
de teu insuflar,
meus versos,
como pelúcias e pétalas,
no regaço das tardes,
no jardim das estrelas,
haverão assim de cair,
haverão de pousar.
Fernando Campanella

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Revisitado


Bem-vindo à minha casa
mas se quiseres ir ao sótão
traz as velas , algo ali vive
que não permite a crua luz
escancarada.

Eu o revisito tantas vezes
e não me incomodam seus trastes,
alguns ratos - eles me convivem,
eu sou o velho hóspede da casa.

Subo e desço no cotidiano ato,
gosto de ir às vezes regar,
antes que esquecidas mal cheirem,
as flores de meu cercado
(com a palma de meus olhos
acaricio as ternas fugacidades).

Desço e subo, vou por estes cômodos
sonambulando.

Acomoda-te em minha casa
mas se quiseres entrar em meu sótão
acende as velas.

Ali já estou aclimatado,
sou amigo do gato, eu furto a luz
pelas mínimas frestas do telhado.
Ali todas artimanhas já incorporei,
eu sei dos hábitos, eu me convivo -

eu sou o velho fantasma da casa.
Fernando Campanella

quinta-feira, 19 de março de 2009

Outono


uma aragem
uma estação
um rito de passagem...
um cão sem pelo
em cima do muro:
não é lava nem gelo
nem claro nem escuro -
uma luz quase sedada
em transição
(as árvores confrangem;
os ursos já estendem
as compridas camas)
um sopro
esta alma esvoaçada
um verso
uma folha de mim
à tua janela
deixada.

Fernando Campanella





sexta-feira, 13 de março de 2009

Vias Errantes

Tarde de maio,
eu sou o que vaga
espírito que viaja
morada de vento,
abrigo de nada.
Eu sou o que noite deserda
e em palhas de sombras
anseia seu ninho.
Trilho o futuro
- meu ser é radiotelescópio-
mas por estas vias errantes
sempre a mim mesmo eu volto.
De luz a sede intransponível,
nada do que toco me veste.
Só meu caminho é arrimo.
O filho do homem
tem a ilusão do destino.
F. Campanella

quinta-feira, 12 de março de 2009

Resquício


Às vezes


A dor de chuvas passadas


Cai em mim fina,


Reelaborada,


A ponto de não ser eu


Assim mais que bolhas


Na espuma da tarde


Molhada.
Fernando Campanella


quinta-feira, 5 de março de 2009

A Vida, Enfim



Se nascemos para o amor
Para a celebração não oficial da vida,
não deixe, Deus, que eu me afogue
nas emboscadas de meus dissídios.
Venha a mim, a centelha exata que irradia,
Cruza os pântanos
E ilumina os párias.
Um mundo, enfim,
sem pedigree nem castas,
sem cifras nem mágoas.
Fernando Campanella

domingo, 1 de março de 2009

Calendário das Flores

Tenta te orientar pelo calendário das flores, esquece, por um momento, os números, a semana, o dia de teu nascimento. se conseguires ser leve, aproveita, enche tuas malas de sonho e toma carona no vento. Fernando Campanella

sábado, 28 de fevereiro de 2009

XXII

XXII

Poemas são caixas
Que se abrem em dedos,
Aos poucos se povoam recantos
De leve se iluminam segredos.
Fernando Campanella


XXXIV



XXXIV
Esta chuva tem uma melancolia
de úmidas árvores, de pálidas luas,
de aromas sonâmbulos no tempo.
Um frêmito perpassa os ruídos
e bate à porta de meu silêncio
e entra.

Algo em mim, eu sinto,
chama as almas
que de outros reinos
isentas de voz me chegam.
(Eu sou o dócil instrumento
daquelas naturezas dormentes
que agora, eu sei,
me são algo de dentro)
Fernando Campanella