quinta-feira, 31 de março de 2011

Presença


a Altino Caixeta de Castro

Não vim para ficar:
não sou senão minha possibilidade de volta
minha indizível presença
que se resvala
no espanto de ser

Vim
provisoriamente
desafiar o século
anistiar meu susto
traduzir no tempo
este absurdo de nós

Não cheguei tarde
porque tarde é para os incrédulos
e os fantasmas que não se vingaram em vida

E porque nem tudo está falado:
o mundo ainda é uma esfinge
que devora os mudos
e os simplesmente chegados.
Maria Esther Maciel

A Sombra


A sombra do café magoa
o copo donde bebo
não tem fundo
assim como não tem dentro
Luís Rodrigues

Um Objecto


Pegue-se num objecto, qualquer objecto
Aprenda-se a gostar dele
Construa-se sobre ele a teia das nossas fantasias
E sinta-se desapontado
Quando ele se comporta como mero objecto que é
Luís Rodrigues

E ao Anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
Al Berto

Sofro por causa do meu espírito de colecionador-arqueólogo. Quero pôr o bonito numa caixa com chave para abrir de vez em quando e olhar
Adélia Prado

sábado, 26 de março de 2011

Compreendi que a vida não é uma sonata que, para realizar sua beleza, tem que ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade.

Um único momento de beleza e de amor justifica a vida inteira.
Rubem Alves
O outono é triste. Acho que é porque ele é uma metáfora da vida.
A despedida deveria ser assim: uma orgia de beleza.
Rubem Alves

Caminho


Minha luz se resume a uma vela que se equilibra à mera brisa...
Me basta para clarear o caminho que trilho!
Cesar Veneziani
02/03/2011

Esperando Aviões


Música: Esperando Aviões
Composição/Intérprete: Vander Lee

quinta-feira, 24 de março de 2011

Miragem


Sou toda rosas e espinhos,
e por não saber à que vim,
é que me perco em mim
à procura de meus caminhos.

Se vivo em internos mundos,
é porque são mais coloridos
esses campos d'Eu floridos
de liláses sob céus profundos.

E se achas meu ser um tanto etéreo,
saibas que também o sou para mim,
vivo a procura de meu início e fim.
Sou miragem! Meu próprio mistério!
Lenise Marques

Epigrama nº 9


O vento voa,
a noite toda se atordoa,
a fôlha cai.
Haverá mesmo algum pensamento
sobre essa noite? sobre esse vento?
sobre essa folha que se vai?
Cecília Meireles

terça-feira, 22 de março de 2011

Árvore


cego
de ser raiz

imóvel
de me ascender caule

múltiplo
de ser folha

aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo
          

Mia Couto






Outono


Caqui maduro, carambolas
passarinhos cantando na goiabeira
um pé de manga dourado,
um riacho...uma ribeira
uma rede balançando
uma tarde alvissareira
cheiro de mato molhado
é o outono se chegando...
£una

domingo, 20 de março de 2011

Sonho Na Bolha


meu sonho voou na bolha
na bolha de sabão
da cor do açafrão voou meu sonho
voou veloz
por entre as nuvens de azul monet
com nuvenzinhas formando bouquet
meu sonho cresceu...cresceu...ficou rosé
quis ser estrela dentro da bolha
quis ser estrada, quis ser cometa
quis ser planeta na imensidão
mas era só um sonho sozinho
dentro de uma bolha de sabão...
£UNA

Azul


Tropeçou no sol da manhã
e mergulhou no azul do outono.
Helena Kolody

Outono

É uma borboleta amarela?
Ou uma folha que se
desprendeu
que não quer tombar?
Mario Quintana

sábado, 19 de março de 2011

Se a saudade te solidificasse,
 choraria estrelas.
Patty Vicensotti

Amor Lilás


Sentados em bancos do tempo
sopramos palavras
que emitiam sons
quase inaudíveis :
só o coração ouvia

E teus limites
em meio a quietude
embriagava –se com o cantar
de um amor lilás

E chegamos ao infinito,
vestidos do orvalho
que reveste os disfarces
dos medos adormecidos
Conceição Bentes

sexta-feira, 18 de março de 2011

Quietude


Tem instantes em que nada me é mais adequado,
que os rumores de um silêncio,acordando certos
sentidos,como um clarão,no obscuro de dentro.
É uma sutileza que me amansa,essa pausa de
nada ouvir,onde tudo me ordena.
Patty Vicensotti

domingo, 13 de março de 2011

Colcha de Retalhos


Qual colcha de retalhos
minha vida,
fui juntando os pedaços,
costurando...
um veludo...uma renda,
um pouco de cetim,
um paetê brilhando
ou coisa assim...
As vezes uma nesga de algodão,
um cânhamo puído
se esgarçando...
e um resto que sobrou da fantasia
de arlequim...
£una

A Barca Azul


A barca azul dos sonhos passa ainda
o casco prateado refletindo o luar
sobre as espumas.
Passa cheia de sonhos e a noite infinda
borda estrelas azuis no negro mar
de brumas...
£una


Acerca Do Amor




Do amor só digo isto:

o sol adormece ao crepúsculo
no oferecido colo do poente
e nada é tão belo e íntimo,

0 resto é business dos amantes.
Dizê-lo seria fragmentar a lua inteira.
                Filinto Elísio


Nós


Nessa tua janela, solitário,
entre as grades douradas da gaiola,
teu amigo de exílio, teu canário
canta, e eu sei que esse canto te consola.
E, lá na rua, o povo tumultuário
ouvindo o canto que daqui se evola
crê que é o nosso romance extraordinário
que naquela canção se desenrola.

Mas, cedo ou tarde, encontrarás, um dia,
calado e frio, na gaiola fria,
o teu canário que cantava tanto.

E eu chorarei. Teu pobre confidente
ensinou-me a chorar tão docemente,
que todo mundo pensará que eu canto.
Guilherme de Almeida

sábado, 12 de março de 2011

Amor Bastante


quando vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante
Paulo Leminsk

Para Que A Escrita Seja Legível


Para que a escrita seja legível,
é preciso dispor os instrumentos,
exercitar a mão,
conhecer todos os caracteres.
Mas para começar a dizer
alguma coisa que valha a pena,
é preciso conhecer todos os sentidos
de todos os caracteres,
e ter experimentado em si próprio
todos esses sentidos,
e ter observado no mundo
e no transmundo
todos os resultados dessas experiências.
Cecília Meireles

Soltos de Imensidão

Os anos, Elza, já não gravam nada,
porque gravamos nós o tempo todo.
O teu cuidar, faz-me animar o fogo
e cada dia em nós, jamais se apaga.

Provados somos e o provar é um gomo
desta romã partida pelas águas.
Somos o fruto, somos a dentada
e a madureza de ir no mesmo sonho.

Os anos, Elza, não consertam mágoas,
mas as mágoas não correm, se corremos.
Não encanece a luz, onde são remos

da limpa madrugada, os nossos corpos.
Amamos. No existir estamos soltos,
soltos de imensidão entre as palavras.
Carlos Nejar

Intimidade


Intimidade é quando a vida da gente relaxa diante de outra vida e respira macio. Não há porque se defender de coisa alguma nem porque se esforçar para o que quer que seja. O coração pode espalhar os seus brinquedos. Cantar a música que cada instante compõe. Bordar cada encontro com as linhas do seu próprio novelo. Contar as paisagens que vê enquanto cria o caminho. Andar descalço, sem medo de ferir os pés.
Ana Jácomo

Derradeiro


Um dia alguém me contou que quando era criança chorava quando ouvia ou lia a palavra derradeiro. Acolhi com ouvido de poesia. E sorri, dentro, com ternura por essas singularidades lindas de cada um. Mas sorri muito mais porque adulta, diante de cada experiência derradeira que a vida desembrulha, geralmente choro também. Às vezes, à beça, por outros tantos instantes derradeiros.

Memória de choro é vasta.
Ana Jácomo

Chave


porta, cadeado, janela
cofre, baú, tramela
a chave tranca
esconde, isola
a chave protege
guarda, faz esquecer

a tristeza e o medo
são chaves que encarceram
tornam segredo
trancam a vida
de quem é covarde
e não toma sol
porque arde
Cesar Veneziani
13/06/2009


Ciranda


palavras excitam
conflitam
fluem elétricas nos elos neurônicos
atropelam os conceitos
e me prostram
até que a poesia
as junte em ciranda
Cesar Veneziani
24/11/2010

A Culpa Nossa de Cada Dia


Quando foi que me deparei com ela?
Já nem me lembro.
Mas recordo de todas as vezes
em que ela me tingiu as faces de rubor,
fez meus olhos se voltarem para o chão
e as mãos se sentirem desnudas,
sem pés nem asas para o pouso.
Até já me acostumei com sua presença cortante
entre as abas das minhas horas,
fustigando-me com sua presença incômoda,
aquele sentimento de vácuo
entre o possível e o perfeito.
Ainda vou construir um baú enorme,
enterrar todas as culpas
e pedir licença aos deuses
para ser apenas humana
e justificada.
Basilina Pereira

sexta-feira, 11 de março de 2011


Aceitarás o amor como eu o encaro?
Azul bem leve, um nimbo...
Não desejo
Também mais nada, só te olhar...
O encanto
Que nasce das adorações serenas.
Adélia Prado

Uma vez, quando eu tinha quatro anos,
achei um caco de vidro no monturo.
Lavei, enxuguei, guardei bem guardado
e fui comer com vontade, ficar obediente,
emprestar minhas coisas, por causa do caco,
porque tinha ele,
porque eu podia quando quisesse
pôr ele contra o sol e aproveitar seu reflexo.
Adélia Prado

Gota D'água




Gota D'água
Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água...
Chico Buarque

quinta-feira, 10 de março de 2011

Liberdade

Será liberdade
aquele vôo de águia

 Que poder tenho eu
sobre o dom da liberdade
de uma simples
borboleta?

Liberdade é assim:
sai o perfume da flor
mas a flor não sai
de mim...
Afonso Estebanez

Acalanto


Voa pensamento
vai fazer teu ninho
no silêncio inexorável
Peça ao coração dolorido
que leve um copo
de leite quente
para a outra metade
do coração febril
escondido entre os lençois
de uma lembrança
que lhe partiu ao meio
e as tantas
de outra madrugada
nos deixou a sós
Seu doce anjo ainda lhe afaga
os cabelos da lembrança
e a ilusão que ficou na porta
da recordação feito criança
espera o doce beijo de acalanto
o beijo do vento
o gosto do vento
na face dos olhos tristes.
Claraflor

quarta-feira, 9 de março de 2011

Som dos Ventos


Viverei na imutável busca
da essência de uma gota tênue
perdida na imensidão
ritmada na solidão

Navegarei ao som dos ventos
pelos acordes de uma canção melancólica
até chegar a ti, transformando dias,
misturando horas, desfazendo instantes,
revivendo amor
Conceição Bentes

Sempre Te Amo Tanto


Te amo
sempre, sempre...
que o nunca que me agonia
parece ser
sempre, sempre...

O mesmo sempre
que te amo.

Te amo
tanto, tanto...
que o pouco que me compõe
parece ser
tanto, tanto...

O mesmo tanto
que te amo.
Oswaldo Antônio Begiato

Colar


Ajuntei aqui e ali algumas pedrinhas
Que fui encontrando perdidas pelo chão
Enquanto meus passos se apagavam de ti:


-Uma esmeraldinha pálida de susto
Com as quinas quebradas e cheias de limo
Por conta de um amor desesperançado;

- Um rubi, cor de rosa e já escangalhado,
Com as veias vazias e o coração mudo
De tanto amar intensa e inutilmente;

- Uma safira querendo embranquecer,
Opaca pelo passar de mão em mão
Que lhes foram deixando sem o olhar intenso.

Com elas fiz este colar, amarrado com tristeza,
Que agora te entrego às portas de minha partida:
- Deixo-o para ti como prova de minhas saudades.

Comigo levo apenas aquele seixo rolado pequenino
Por mim recolhido de dentro de tuas águas passadiças,
Onde vou repousar minha cabeça livre e leve e sem sonhos.
Oswaldo Antônio Begiato

Ela


A lua? Achei-a bem cheia,
uma gueixa, sem queixas,
nua, iluminando a rua
Clóvis Campêlo

Significado


No poema
e nas nuvens,
cada qual descobre
o que deseja ver.
Helena Kolody

O Atraso Pontual


Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relógio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser no tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vêm sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre o tempo e o espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que eu faço?
Paulo Lemisnk

VIII

parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é meu deus

e eu sou o seu profeta
Paulo Lemisnk

Da Fidelidade


Há alguma coisa maior que nós mesmos que é a fidelidade a nós mesmos
Flor espantosa que vive das águas cáusticas e das terras apodrecidas da prodigiosa extensão humana.
É a sua santidade que eu quero fazer nascer destas palavras de ritmo obscuro
E neste momento mesmo é talvez a sua inocência que eu violento com os meus dedos mártires que a desejariam sangrando.
Ela nasce desse instante supremo em que o homem que viu a verdade sente que a sua simplicidade trágica nada poderá contra ele
Ele que é como o país que vê a guerra no pássaro de arribação que se pousou da grande viagem sobre o seu pavilhão estendido.
Não existe talvez nada mais belo que a miséria que habita essa alma que nós mostramos como um pavilhão estendido ao pássaro peregrino
E talvez nada mais horrível que essa guerra que se vê nascer subitamente das entranhas da nossa miséria
A fidelidade é como o amor da miséria pelo eterno viajante sereno
É como um homem que à força de contemplar um rio é por sua vez comtemplado por ele.
Se é que há um lugar de Deus em cada criatura nada será fidelidade senão a fidelidade à falta de Deus neste lugar
Aos sentimentos e nunca à verdade porque a verdade é o símbolo do absoluto e o absoluto é a morte do homem.
Ai de mim! talvez eu devesse morrer porque eu digo as palavras da fé com gestos de inteligência.
Fidelidade, lírio, anjo, mar de pureza!
Vinícius de Moraes

A Rosa Desfolhada


Tento compor o nosso amor
Dentro da tua ausência
Toda a loucura, todo o martírio
De uma paixão imensa
Teu toca-discos, nosso retrato
Um tempo descuidado

Tudo pisado, tudo partido
Tudo no chão jogado
E em cada canto
Teu desencanto
Tua melancolia
Teu triste vulto desesperado
Ante o que eu te dizia
E logo o espanto e logo o insulto
O amor dilacerado
E logo o pranto ante a agonia
Do fato consumado

Silenciosa
Ficou a rosa
No chão despetalada
Que eu com meus dedos tentei a medo
Reconstruir do nada:
O teu perfume, teus doces pêlos
A tua pele amada
Tudo desfeito, tudo perdido
A rosa desfolhada
Vinícius de Moraes

A Medida do Abismo


Não é o grito
A medida do abismo?
Por isso eu grito
Sempre que cismo
Sobre tua vida
Tão louca e errada...
- Que grito inútil!
- Que imenso nada!
Vinícius de Moraes