quarta-feira, 9 de março de 2011

Da Fidelidade


Há alguma coisa maior que nós mesmos que é a fidelidade a nós mesmos
Flor espantosa que vive das águas cáusticas e das terras apodrecidas da prodigiosa extensão humana.
É a sua santidade que eu quero fazer nascer destas palavras de ritmo obscuro
E neste momento mesmo é talvez a sua inocência que eu violento com os meus dedos mártires que a desejariam sangrando.
Ela nasce desse instante supremo em que o homem que viu a verdade sente que a sua simplicidade trágica nada poderá contra ele
Ele que é como o país que vê a guerra no pássaro de arribação que se pousou da grande viagem sobre o seu pavilhão estendido.
Não existe talvez nada mais belo que a miséria que habita essa alma que nós mostramos como um pavilhão estendido ao pássaro peregrino
E talvez nada mais horrível que essa guerra que se vê nascer subitamente das entranhas da nossa miséria
A fidelidade é como o amor da miséria pelo eterno viajante sereno
É como um homem que à força de contemplar um rio é por sua vez comtemplado por ele.
Se é que há um lugar de Deus em cada criatura nada será fidelidade senão a fidelidade à falta de Deus neste lugar
Aos sentimentos e nunca à verdade porque a verdade é o símbolo do absoluto e o absoluto é a morte do homem.
Ai de mim! talvez eu devesse morrer porque eu digo as palavras da fé com gestos de inteligência.
Fidelidade, lírio, anjo, mar de pureza!
Vinícius de Moraes

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