domingo, 31 de janeiro de 2010

Meu Jardim


Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores
Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores

Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho
Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho
Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho
Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho

Estou podando meu jardim
Estou cuidando bem de mim
Vander Lee

sábado, 30 de janeiro de 2010

Sopra-me


Sopra-me
que ao de onde procedo
haverei com levezas
de, então, retornar.
Com o calor de teu sopro,
de teu insuflar,
meus versos,
como pelúcias e pétalas,
no regaço das tardes,
no jardim das estrelas,
haverão assim de cair,
haverão de pousar.
Fernando Campanella

domingo, 24 de janeiro de 2010

Asa No Espaço


Asa no espaço, vai pensamento!
Na noite azul, minha alma, flutua!
Quero voar no braços do vento,
quero vogar nos barcos da Lua!

Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta.
Por oceanos de novoeiro,
corre o impossível, de ponta a ponta.

Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, príncipio e fim.

Castelos fluidos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
asa, mais alto, mais alto, mais!
Fernanda de Castro

Escapismo


Tristezas podem ficar caladas.
É só não puxar por elas.
Enquanto dormem,
abastecemos a barca de sonhos,
aquietamos o rio das indagações.
Quando a tristeza acordar pálida
do pó de seus porões,
é nossa vez de descansar.
O ponteiro do desencontro torna possível
navegar.
Flora Figueiredo

domingo, 17 de janeiro de 2010

V


Nem chegam a ser os teus cabelos louros
e o perfume do olhar abandonado.

Nem é teu riso. E as tuas mãos serenas.
Nem o teu gesto, o cumprimento franco.
Nem o teu quarto, as flores nas latas das janelas,
e a escada, o mundo nunca desvendado...

Será somente o teu vestido branco
e esvoaçante como as lindas velas
que se dão à manhã e douram o mar.

Será somente o teu vestido branco
que se agita no corpo mais florente
e é como um adeus na vastidão do mar
Alphonsus de Guimaraens Filho

domingo, 10 de janeiro de 2010

Epigrama nº 5



Gosto da gota d'água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.

Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar - límpido e exacto.

E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do acto.
Cecília Meireles