segunda-feira, 29 de junho de 2009

Fragmento de Ode


Nas cartas que se escrevem e não
chegam ao destino, o que ficou dito
tem o eco do que nunca será
esquecido: a voz que se ouviu numa
paragem do tempo, e atravessa
o centro da memória numa inquieta
procissão de sombras.
Pudessem os arcos do horizonte
abrir-se como um lamento de pombas;
ou este sonho fechar-se com o correr
da cortina de um último ato: nunca
os dedos amados irão soletrar
a frase do crepúsculo, soltando
da sua música um enxame de sílabas.
E o azul enche a garrafa do céu
para que as aves se embriaguem
no púlpito do infinito, arrastando
no seu vôo uma cinza de imagens.
Nuno Júdice

domingo, 28 de junho de 2009

Brumas


Nas brumas dos meus silêncios
Nascem visões encantadas,
Com ninfas, bruxas e fadas,
Sonhos de amor, sempre densos.

Nas brumas dos meus silêncios,
Onde os mistérios são nada,
Surgem paixões exaltadas,
Feitas desejos, imensos.

Nascem lembranças, eivadas
De sensações adiadas
E cheiros breves, intensos,

Sem ilusões ansiadas,
Em desespero, guardadas
Nas brumas dos meus silêncios.
Vítor Cintra

Poesia


Com a inquietação de toda a vida que se aproxima
Desce também sobre mim o destino implacável como a noite
Colhendo tudo de surpresa, chegando de cima.
O vento joga no meu rosto as sombras das vozes passadas,
Os ruídos eternos, o eco dos inextinguíveis silêncios
Nascidos das confissões estancadas.
Vazios e inúteis como as vigílias sem cansaço
São meus pedidos de auxilio para uma germinação estranha de ímpetos
Que correm para mim, semeados no espaço.
Meus sentidos se prolongam na agonia da tarde
Procurando encontrar na treva da noite
O fim misterioso e sem alarde.
Minha existência é o ultimo pensamento no estertor do suicida
Que abraça a morte
Esperançoso de vida.
Adalgisa Nery

domingo, 21 de junho de 2009

O Grito


Estou acorrentado a este penhasco
logo eu que roubei o fogo dos céus.
Há muito tempo sei que este penhasco
não existe, como tampouco há um deus
a me punir, mas sigo acorrentado.
Aguardam-me amplos caminhos no mar
e urbes formigantes a sonhar
cruzamentos febris e inopinados.
Você diz “claro” e recomenda um amigo
que parcela pacotes de excursões.
Abutres devoram-me as decisões
e uma ponta do fígado mas digo
E daí? Dia desses com um só grito
eu estraçalho todos os grilhões.
Antônio Cícero

Sou Tantos

Há certas horas que não sou ninguém,
ninguém mora em mim
e sou quase tudo o que não quero ser.
Se desejo perder-me, acendo velas
e enxergo a escuridão do inusitado,
cedo à alma o direito de morrer
e deixo o meu corpo acordar-se.

Há pecados dentro de nós que são doces demais
e quando não nos levam, um outro traz
e meio aos desejos somos descobertos,
chorando alegres, fazendo festas, criando versos.

Desejo morrer escrevendo,
relembrando os amores beijados,
amando as crianças,
registrando o passado.

Um escritor é cada escritor que acha dentro da alma.
Há os que choram e os que cantam...
e os que nunca são por si achados.
Paulino Vergetti Neto

Coleção


Todo mundo coleciona alguma coisa.
Eu preferi não arriscar.
Talvez por falta de criatividade
ou, quem sabe, por um apelo inusitado,
pintei a vida em preto e branco
e, no jardim dos esquecidos
decidi colecionar olhares:
olhar de tristeza,
de medo,
decepção...
faltam palavras
pra definir todos os sentimentos
esquecidos
entre um lampejo e um piscar de olhos.
E assim,
sem espaço e horizonte
sigo captando o brilho ou a sua falta
que nas madrugadas
transformo em verso
Basilina Pereira

domingo, 14 de junho de 2009

Exausto


Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
Adélia Prado

Tão Sutilmente Em tantos breves Anos


Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.

Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.
Lya Luft

sábado, 6 de junho de 2009

Silêncio Amoroso 2


Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo,
pode construir.
É um modo
denso/tenso
- de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.
Affonso Romano de Sant’Anna
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus barcos....
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...

O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha....
Se tu viesses quando, linda e louca,

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri.
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti....
Florbela Espanca

Cumplicidade


Acordei com vontade de lhe dar meu olhar.

Queria que o guardasse para mim

Naquela sua caixinha de porcelana

Que tens na cabeceira de tua cama

E onde todas as noites, antes de dormir,

Guardas delicadamente

Os sonhos que não queres ter..
Oswaldo Antônio Begiato