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domingo, 11 de março de 2012

Mãos Vazias

... buscando o nada
 palpando o tudo
entre coisas vãs. ...
contorcendo-se
na distância do tempo
magras de vida interior.
... ansiando calor
 nervosas como quem espera flores
 inexpressivas aos regressos
desbotadas como carícia perdida
agonizante de eloqüências
sem cores
cegas
mudas como pássaros feridos.
Mãos vazias
vazias
paradas em meio dos caminhos
vazios.
Alvina Nunes Tzovenos

segunda-feira, 5 de março de 2012

Alma Nua

Ó Pai Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
 Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio
Deus Viver menino, morrer poeta

Vander Lee

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Fantasia


Escondida de mim mesma
visto as asas da libélula e finjo que sei bailar.
Misturada a outras tantas
tintas de outras cores
cheiros de outras flores
canções que eu não sei cantar,
rodopio leve e lépida
entre um suspiro e um arquejo.
Travestida ou camuflada?
Vestida ou fantasiada?
Mentira séria ou inventada?
Eu não sei, mas não faz mal...
Melhor do que a fantasia
é poder despir-se dela
no final
de todo dia.
Lilian Dalledone

Semeando

Insone
Semeio lágrimas
na esperança adolescente
que elas floresçam poesia.
Amanhã, quem sabe
haja chuva
pra fertilizar o sentimento
e fazê-lo brotar
palavra
que ruminarei, insistente
até me satisfazer
poeta.
Lilian Dalledone

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A Palavra Mágica


Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo minha palavra.
Carlos Drummond de Andrade

sábado, 25 de fevereiro de 2012

16 anos sem Caio F.

* 12 de setembro de 1948
+ 25 de fevereiro de 1996


"Não se preocupe. Não fique triste. Tudo me parece muito lógico: Que outra morte eu poderia ter? É a minha cara! E futilidade foi matéria de salvação: convenhamos que é muito moderno, muito in... Só choro às vezes porque a vida me parece bela (O sol. As cores. As coisas). Mas é de emoção, não de dor. Tá tudo certo"
"A solidão às vezes é tão nítida como uma companhia. Vou me adequando, vou me amoldando. Nem sempre é horrível. Às vezes é até bem mansinha. Mas sinto tão estranhamente que o amor acabou [...] Repito sempre: sossega, sossega – o amor não é para o teu bico."

"A Vida é apenas uma ponte ente dois nadas e tenho pressa"


"Não escreva nada, não nos procuraremos mais: um dia nos cruzamos por acaso de repente, e então vemos o que aconteceu a nossos rancores e reagimos de acordo com isso. Mas se você quiser me contar de suas funduras, e não apenas defender-se - e os amigos são, sim, para trocar abismos - então me escreva 10, 100 páginas, e eu repoonderei com calor, com carinho, com toda amizade que realmente sinto por você"



"Gosto de pessoas doces, gosto de situações claras - e por tudo isso, ando cada vez mais só."
 
"Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada"

Caio Fernando Abreu