Eis que olhei para trás e meus erros haviam secado pendurados nos galhos do tempo.
Havia uma voz no vento, tomei meu cavalo e a segui. Na algibeira paz derradeira de quem ama a solidão.
E quando a noite do fim dos dias tocar-me a face com os negros dedos, docemente entregarei o corpo à terra, soltarei o alazão às pastagens e a alma...à imensidão. Lenise Marques
Aflição de ser eu e não ser outra. Aflição de não ser, amor, aquela Que muitas filhas te deu, casou donzela E à noite se prepara e se adivinha Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha Que te retém e não te desespera. (A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra E ter a face conturbada e móvel. E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera. Aflição de te amar, se te comove. E sendo água, amor, querer ser terra. Hilda Hilst
O vento morria de tédio Porque apenas gostava de cantar Mas não tinha letra alguma para a sua própria voz, Cada vez mais vazia...
Tentei então compor-lhe uma canção Tão comprida como a minha vida E com aventuras espantosas que eu inventava de súbito, Como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos E fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo... Mas o vento, por isso Me julga agora como ele... E me dedica um amor solidário, profundo! Mario Quintana
Mas vocês não repararam, não?! Nos salões do sonho nunca há espelhos... Por quê? Será porque somos tão nós mesmos Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos? Ou, então - e aqui começa um arrepio - Seremos acaso tão outros? Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo, Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado, Se espelhos houvesse! Ninguém pode saber... Só o diria Mas nada diz, Por motivos que só ele conhece, O misterioso Cenarista dos Sonhos! Mario Quintana
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração... Chico Buarque