quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Psiu


Psiu

A clara visão sente em todas as cousas uma correspondência profunda.

Mundo meu: formas, cores, visão. Em toda visão, por mais simples que seja, existe um princípio de vidência. Ver é integrar a forma para sentir a essência. Uma paisagem com a sua diversidade refletida na retina procura em nós a unidade. Árvore, coxilha, casa, nuvem, céu. De vez em quando um pássaro passa rápido, signo que é preciso decifrar. Mas tudo isso é apenas o material que eu emprego na construção do mundo.

Mundo meu! Os meus olhos acordaram matinais e lavados no orvalho da vida. Lynceus abre as janelas da torre e a manhã entra nas suas pupilas famintas de luz. Devia pronunciar o teu nome no meu coração limpo como um lago onde a evidência azul da luz contempla o céu. Devia rezar o teu nome sem pensar que há outras palavras velhas ou novas na minha devoção. Porque eu não sou um poeta, sou o homem. Venho da carne e volto à terra.

Manhã, quando poderei sumir enfim no reino do teu silêncio, dissolver-me na tua harmonia como aquela nuvem que passou agora mesmo e ninguém sabe onde está? Silenciosa é a beleza e nós falamos tanto...Momento há em que todas as palavras parecem mentirosas: é quando a beleza da vida se entremostra, minuto fugitivo da visão.

É por isso que eu prefiro ficar diante da paisagem como um lago passivo. Nenhuma pedra riscará ondulações no meu espelho: eu sou uma pupila inocente e profunda. Reflito a pureza natural das cousas sem o mais leve tremor. Sou a rosa ao sol e o jardim humilde ao pé do muro. Sou a trama de prata no arrebol banhado de orvalho.

A minha frauta se chama silêncio. E sinto na mentira da boca o aviso do psiu...
Augusto Meyer

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