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domingo, 29 de março de 2009

Amor Feinho


Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
Adélia Prado

Dona Doida



Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.
Adélia Prado

Prece



Dê-me o esquecimento, meu pai.
Dê-me uma noite sem sombra
ou sobressalto, um sono inteiro
um instante sem rumor.
Dê-me teu silêncio, meu pai.
A solidez das pedras, o rigor das coisas
a solidão sem dor.
Maria Esther Maciel

Aula de Desenho



Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço. De aço, o papel.
Esboço uma face a régua e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retraço o retrato. Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz.
Maria Esther Maciel

Autoconfissão




Lareira acesa, tantas formas
Entre as brasas, dolorido som
Da madeira queimando lembranças,
O fogo brando brinca aos meus olhos,
Não espanta os fantasmas,
Não move os relógios,
Não me protege da noite.
E toda a claridade da lua,
Reflete na taça em que bebo
Doses de saudade.
O mundo atrás da janela,
Há muito perdeu o sentido,
Em meio a tanta iniqüidade,
E meus versos não mudam nada,
Confesso-me neles, tão culpado como todos,
Acendo meu cachimbo, mais um conhaque
E findo.
Sei que há muito além da janela,
Mas a quem importa todas as dores,
Que calmamente o fogo incinera?
Tonho França

Às vezes, só às vezes


Nos porões, nas alcovas.
Mais internas,
Ou nos sótãos que não abro
Nas primaveras
Nas louçarias porcelanizadas
Em azuis decorados por tempos
Esquecidos passados,
Às vezes, só às vezes
Nas estantes onde repousam os livros
A tristeza emerge tão abrupta e voraz
Que minhas defesas, dissolutas
Desabam aos versos, vencidas
Pelas lágrimas absolutas, remidas
Imagens do que já foi a vida
Tonho França

Ventos de Solidão


Ventos de solidão...
A solidão rasga as cortinas,
Entorna os vinhos, quebra os tonéis,
Vem pelas escadarias,
Anjos nus em ventanias,
Lava os anéis de todas promessas,
A solidão não tem pressa.
Sangra a poesia,
e os homens ficam assim,
turvos, curvos, mudos...
E as ruas ficam assim,
Cobertos pelo pó de tempo,
Amanhecendo esquecimentos,
Que nunca terão fim.
Tonho França