[...]
Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca
[...]
Álvaro de Campos
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Autobiografia
Meus sapatos são canetas.
Não deixo rastros,
deixo letras.
Meus caminhos são poemas.
Não deixo lágrimas,
deixo tremas.
Assim vou andando
na minha estrada de papel,
pendurando as estrelas
num cordel.
Olegário Schmitt
Leilão de Jardim
Quem me compra um jardim com flores?
borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?
Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?
(Este é meu leilão!)
Cecília Meireles
As Pequenas Palavras
porque lágrima, chuva, porque mar
porque saliva, bátega, nascente
porque rio, porque sede, porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.
De todas as palavras escolhi flor
porque terra, papoila, cor, semente
porque rosa, recado, porque pele
porque pétala, pólen, porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.
De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga, riso, porque amor
porque partilha, boca, porque nós
porque segredo, água, mel e flor.
E porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolhi dor.
Rosa Lobato de Faria
Infância
Eu fui meu
como o espaço
era do pássaro.
Eu me soltava
em cantos e plumas
pelos campos da manhã.
Eu brincava comigo:
eu era eu
e o meu amigo.
Eu me falava baixo
para não espantar
o meu silêncio.
Eu era pequeno
e imenso
Wilson Pereira
Delicadeza
Com vestido de flores
E presilha no cabelo
Vou te esperar no portão pela tardinha
E quando chegares
Usarei o meu melhor sorriso
E te darei as margaridas que ainda restarem
Da minha brincadeira
De mal me quer bem me quer
Lou Witt
E presilha no cabelo
Vou te esperar no portão pela tardinha
E quando chegares
Usarei o meu melhor sorriso
E te darei as margaridas que ainda restarem
Da minha brincadeira
De mal me quer bem me quer
Lou Witt
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